Articles and Essays by Mark Engler

    Imigração tem efeito positivo sobre emprego e salários

    Nos EUA, os imigrantes não estão a roubar empregos que poderiam ser ocupados por cidadãos naturais. Pelo contrário, estimulam a economia, e o resultado são salários mais elevados para os trabalhadores norte-americanos, defende o professor Giovanni Peri, entrevistado por Mark Engler, da Foreign Policy In Focus.

    Verdade ou não, muitas pessoas querem simplesmente acreditar que os imigrantes ilegais que entram nos EUA roubam empregos e debilitam a economia americana. Quando surgem estudos económicos que põem em causa os seus preconceitos, não são receptivos a conclusões controversas.

    Recentemente, o economista Giovanni Peri – professor associado da Universidade da Califórnia em Davis e académico visitante do Federal Reserve Bank de São Francisco – escreveu uma comunicação para o Fed (Federal Reserve – banco central dos EUA) onde resumia pesquisas recentes sobre a economia da imigração. Ao analisar os dados, Peri concluiu que “em última análise, os imigrantes aumentam a capacidade de produção da economia norte-americana, estimulam o investimento e promovem uma especialização que, a longo prazo, acelera a produção. Como já foi demonstrado por pesquisas anteriores, não há provas de que estes impactos tenham lugar à custa dos empregos dos trabalhadores naturais nos Estados Unidos da América.”

    Por outras palavras, os imigrantes não estão a roubar postos de trabalho que poderiam ser ocupados por cidadãos naturais nos EUA e, na verdade, estimulam a economia de uma forma que, em média, tem como resultado salários mais elevados para os trabalhadores norte-americanos.

    À medida que as conclusões da comunicação foram disseminadas por blogues políticos, alguns comentadores reagiram de maneira negativa e criticaram Peri, na crença de que as suas conclusões contradiziam as leis económicas básicas da oferta e da procura. Embora uma parte dos opositores não estivesse interessada em envolver-se na pesquisa económica – as suas objecções eram de ordem política – outros leitores levantaram questões legítimas. E até os norte-americanos que se identificam como progressistas podem perguntar a si mesmos se a emigração não ameaça os sindicatos e mina os padrões estabelecidos pela mão-de-obra organizada.

    Mark Engler, analista sénior do FPIF, discutiu estes tópicos com o Professor Peri e pediu-lhe que esclarecesse as suas conclusões e respondesse a algumas críticas frequentes.

    ENGLER: uma das objecções reiteradas às suas ilações sobre os imigrantes e a economia norte-americana é que as suas conclusões parecem violar a lei da oferta e da procura. Se a oferta de trabalhadores com salários baixos na economia está a aumentar, por que é que isso não leva a uma baixa dos salários?

    PERI: As pessoas parecem compreender a história da oferta e da procura. O que é um pouco mais difícil de entender é a ideia de “complementaridade” em relação à substituição, o que é também um conceito básico da economia.

    Se dois trabalhadores são completamente iguais, a oferta e a procura entram em vigor – da mesma maneira que, se pusermos mais milho no mercado, o seu preço baixa. Mas se tivermos trabalhadores cujos empregos sejam diferentes e se eles se especializarem em tipos de tarefas que são complementares, isto pode aumentar os salários e a produtividade de ambos.

    Um exemplo extremo disto seria se tivéssemos um engenheiro e lhe juntássemos um operário da construção civil. Só com o engenheiro não íamos conseguir lá muito. Mas com um engenheiro e um operário da construção civil podemos construir um edifício. Consequentemente, a produtividade do engenheiro aumenta muito. E os salários de ambos os trabalhadores aumentam.

    Aquilo que tentei abordar em grande parte da minha pesquisa é a maneira como os imigrantes na realidade estão a fazer trabalhos que complementam as capacidades profissionais de muitos dos trabalhadores nascidos nos EUA. E, de facto, o afluxo de imigrantes compele alguns destes trabalhadores naturais dos EUA a terem trabalhos complementares. Isto pode ter efeitos positivos. Na economia, esta história da complementaridade é, na sua essência, tão simples como a história da oferta e da procura.

    Mesmo assim, muitos dos trabalhadores naturais dos EUA não se vêem como complementares. Vêem-se ameaçados, a competir pelos mesmos empregos.

    Uma das diferenças entre trabalhadores imigrantes e trabalhadores naturais do país é que estes provavelmente têm uma melhor compreensão da língua. Só por si isto diferencia as tarefas que um trabalhador natural de um país pode fazer.

    Individualmente teremos imensas histórias pessoais de indivíduos que se sentem ameaçados. Mas se observarmos os dados sobre os tipos de ocupações que os norte-americanos tiveram nos últimos 40 anos, em particular nos estados onde há muitos imigrantes, a tendência tem sido para os naturais do país assumirem os tipos de ocupações que estão mais em linha com o “director de obra” ou “controlador da frota de táxis” do que com o “operário da construção civil” ou “taxista”. Em média, isto produziu mais-valias.

    A um nível individual, se fossemos um trabalhador agrícola norte-americano na Califórnia há 30 anos atrás e ainda andássemos a apanhar morangos hoje em dia, sairíamos a perder. Mas é preciso procurar muito para encontrar trabalhadores naturais do país que ainda tenham este tipo de trabalho. É muito mais comum ver estes trabalhadores com empregos um pouco mais acima na escala laboral – que trabalham, por exemplo, como feitores da quinta.

    Os dados macro-económicos indicam que o/a trabalhador/a norte-americano/a médio/a pode ter melhorado de posto de trabalho devido à imigração – ou seja, que, consequentemente, houve uma recompensa para o trabalhador natural do país.

    Penso que parte da confusão é que as pessoas entendem a economia como tendo um conjunto, um número finito de empregos. Quando um novo indivíduo entra na economia, a ideia é que esta pessoa rouba um emprego a outra. Como resolveria isto?

    Certo. O mercado de trabalho dos Estados Unidos da América é um mercado muito dinâmico. Todos os meses, centenas de milhares de postos de trabalho são eliminados e são criados outras centenas de milhares. Claro que, numa recessão, há mais eliminação. Mas na generalidade, quando um novo trabalhador entra num cenário dinâmico, a presença de mais trabalhadores cria mais oportunidades para as empresas e maiores oportunidades de investimento. Assim, o efeito natural da existência de mais trabalhadores na economia é que são criadas mais empresas, é produzida mais oferta e mais trabalhadores recebem um salário, o que aumenta a procura. Em equilíbrio, a economia expande-se.

    Não há nenhuma razão, a longo prazo, para que mais um trabalhador diminua os salários. Observemos o emprego nos EUA nos últimos 40 anos. O número de trabalhadores duplicou. E os salários também aumentaram 30 ou 40 por cento.

    A questão é: quanto tempo leva a que um trabalhador extra produza o investimento de que a empresa necessita para, em última análise, criar procura, de forma a que esse trabalhador extra se transforme numa expansão da economia e não em menos um posto de trabalho para um trabalhador natural do país? A minha análise indica que estes mecanismos são relativamente rápidos. Por isso, mesmo, no espaço de um ou dois anos, não vemos muitas perdas de postos de trabalho, antes pelo contrário: os estados com mais imigração simplesmente expandem a sua economia um pouco mais depressa. E ao longo de quatro a 10 anos também podemos observar o investimento extra necessário e assim o capital por trabalhador não muda muito e temos um impacto na produtividade.

    Mas os salários reais dos trabalhadores não administrativos dos Estados Unidos da América não aumentaram muito nos últimos 30 ou 40 anos. Quase que estagnaram.

    Aqui é preciso distinguir entre um salário mediano e um salário médio. Os salários dos trabalhadores com uma educação superior na verdade aumentaram bastante nos últimos 30 anos. Os que se comportaram pior foram os salários dos trabalhadores com graus de ensino inferiores. Os economistas estão a procurar perceber as razões disto. Dois grandes candidatos são os impactos da tecnologia e os impactos das trocas comerciais e do off-shore.

    Algumas pessoas também encaram a imigração como uma das razões possíveis – incluindo eu, David Card, de Berkeley, Christian Dustmann, do University College de Londres, e outros. No entanto, os estudos não parecem encontrar um grande impacto negativo da imigração sobre os salários. De facto, alguns não encontram qualquer impacto sobre o emprego e observam um pequeno impacto positivo sobre os salários. E os dados macro-económicos não indicam quaisquer impactos em termos de deslocação.

    Pode comentar o trabalho de George Borjas, um economista de Harvard que argumentou que a imigração cria realmente pressões com tendência descendente sobre os trabalhadores com salários mais baixos? Ele defendeu que essas pressões tiveram como resultado um decréscimo nos salários na ordem dos 7,4% na décima parte mais pobre da população activa entre 1980 e 2000.

    Borjas escreveu um ensaio em 2003 que levantou um grande debate académico. [As estatísticas foram depois contestadas, mas] as pessoas dos meios de comunicação social citam muitas vezes os números antigos. Os números mais recentes, com os quais até Borjas concordaria, sugerem que poderá haver um efeito negativo de 3% sobre os salários dos trabalhadores com um grau de educação menor. Mas até o trabalho de Borjas indica um efeito positivo sobre os trabalhadores com uma educação intermédia ou superior. Por isso, até a sua versão é relativa: indica alguns impactos negativos e alguns impactos positivos.

    Eu discordei de alguns dos cálculos de Borja e disse que ele não tinha considerado adequadamente o mecanismo da complementaridade. Ele presumiu que os trabalhadores naturais do país e os trabalhadores imigrantes são perfeitamente substituíveis quando se trata de graus de ensino inferiores. Os meus estudos ao longo dos últimos três a quatro anos demonstram que, de facto, os trabalhadores naturais do país e os imigrantes têm realmente empregos diferentes, têm na verdade algumas capacidades diferentes e especializam-se de facto em tarefas produtivas diferentes. E isto reduz a competitividade directa. Se tivermos isto em conta, temos um impacto muito pequeno – ou nenhum impacto – naqueles com um nível de educação mais baixo.

    No meu ensaio mais recente faço uma análise baseada numa média geral [dos salários de toda a população activa]. Não decompus os dados para avaliar o impacto da imigração sobre pessoas com níveis de aptidão diferentes. Noutros estudos decompus estes dados e observei a distribuição. Quando fiz isto, o meu estudo mostrou que os maiores benefícios da imigração vão para os trabalhadores com uma educação intermédia ou superior. Contudo, naqueles com níveis de educação inferiores, o impacto é basicamente nulo ou zero.

    Não estou sozinho na minha posição. David Card e outros economistas que trabalham com este tema dizem que é difícil encontrar o efeito negativo que George Borjas reivindica. Tendo tudo em linha de conta, não contesto a ideia dele de que há um maior benefício para aqueles com um nível de educação superior do que para os outros. Mas diria que a imigração não cria na realidade uma perda, mesmo para aqueles com um grau de educação menor. Diria que é nula.

    Como responderia àqueles que argumentam que os novos imigrantes desestabilizam os sindicatos e os padrões de trabalho criados pela mão-de-obra organizada?

    Diria que se o que o vosso sindicato defende é uma classificação profissional específica, na construção por exemplo, a imigração irá criar algumas dificuldades. Se, por outro lado, a preocupação for proteger o trabalhador, isso permite que os trabalhadores naturais do país subam para posições que requerem maiores aptidões na construção e exigem melhores capacidades linguísticas e de comunicação. Se o único interesse for excluir os imigrantes, não será possível capitalizar as mais-valias da imigração.

    Parece que um dos seus principais argumentos é que são os novos imigrantes que acabam por ter os salários mais baixos – são eles que acabam por suportar esse fardo – e não que os novos imigrantes prejudicam os trabalhadores naturais do país.

    De certa forma, os trabalhadores imigrantes competem entre si. Até certo ponto, novas ondas de trabalhadores tornam as coisas mais difíceis para os imigrantes que chegaram antes deles. Mas para os trabalhadores imigrantes, o benefício é o grande salto no salário que eles recebem em relação ao que poderiam ganhar nos seus países de origem, mesmo que pelos padrões dos EUA seja baixo.

    Que relevância política pensa que a sua pesquisa tem?

    Sei que a questão da imigração provoca sentimentos intensos. Tento manter a minha análise rigorosamente no âmbito da economia. Tento observar os dados e ver o que indicam.

    Mas sem dúvida que, dado que os opositores à imigração muitas vezes baseiam os seus argumentos na ideia de que os imigrantes estão a fazer baixar os salários dos cidadãos dos EUA, a roubar postos de trabalho e a prejudicar a economia, o seu trabalho tem implicações a nível do debate político.

    Com certeza. O que eu observo é que quando se afasta o argumento de que os imigrantes prejudicam a economia as pessoas [que se opõem a uma maior imigração] rapidamente recorrem a outros argumentos. Estas pessoas dizem, está bem, talvez isso não seja verdade [que novos imigrantes prejudicam a economia], mas os imigrantes mesmo assim aumentam o risco do terrorismo e criam conflitos culturais. Nessa altura, sublinho que faço pesquisa apenas sobre um aspecto desta questão.

    Mas, na medida em que faz parte da retórica dos grupos anti-imigrantes dizer “Sabemos que os imigrantes roubam empregos e têm um impacto económico negativo”, respondo sempre que a nossa pesquisa diz o contrário. Se sondarmos os economistas sérios que trabalham sobre isto, incluindo George Borjas, todos concordarão em que não há provas de um grande deslocamento ou de um impacto negativo sobre os salários. Alguns dirão que há um pequeno impacto negativo sobre os 10 por cento de trabalhadores norte-americanos que se encontram na base inferior da escala salarial e outros argumentarão que não há provas disso. Mas o consenso é que, relativamente à economia como um todo, há um efeito positivo sobre a produtividade, o emprego e os salários.

    Mark Engler, é escritor, mora em Philadelphia. Seus artigos são publicados nos sites Foreign Policy in Focus (www.fpif.org) e www.DemocracyUprising.com. Tradução de Ana Carneiro para o Esquerda.net

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